Corda Bamba, Café Coado

Corda Bamba, Café Coado

— Trouxe flores.

Essas são as primeiras palavras, usadas como um cumprimento, uma saudação.

Não veio de preto, como manda a tradição. Suas roupas são quase marrons, tipo cor de café que foi coado demais. Aqueles cafés americanos, sabe? Que parecem mais com água suja do qualquer outra coisa.

— Acha um lugar pra coloca-las, então.

Meu tom não sai muito animado, mas não me importo. Devido as circunstâncias, acho que tenho licença poética do mundo para falar do jeito que bem entender.

Ele também, não comenta nada. Parece não saber direito o que faz ali, ainda que o objetivo da visita seja bastante claro.

Estamos nos despedindo.

De Marta e, porque não, de nós mesmos também.

— Como você está? — pergunta, depois de um minuto de silêncio, passado quase todo olhando pra mim como se esperasse encontrar algum tipo de resposta escrita na minha testa.

Respostas demais passam pela minha cabeça, mas nenhuma parece boa o bastante.

“Péssima” parece frágil demais, um resumo cruel do que se passa na minha cabeça.

“Com ódio do mundo” parece literal demais, embora seja de fato bastante verdadeiro.

“Com raiva de você”. Outra verdade, mas uma das que talvez eu não esteja tão disposta assim a compartilhar.

— Na corda bamba, só de um jeito muito pior do que costumava ser. — respondo, sabendo que isso é o melhor que vou poder fazer, considerando como estou me sentindo no momento.

— Não foi sua culpa…

— Culpa não significada nada! Culpa não tem nada haver com isso, não tem nada haver com Marta!

Estou explodindo, e não me importo nem um pouco.

Estou estilhaçando, e não estou prestando atenção onde meus cacos acertam. Ou em quem.

Egoísta, talvez, mas o que é a dor se não uma grandessíssima senhora egoísta e mesquinha, que cobre tudo com sua ausência de cor?

— Nós podemos resolver as coisas.

Ele não me encara quando diz isso. Seus olhos estão no caixão fechado, como se pudesse enxergar o corpo que repousa lá dentro, mas, assim como a culpa, palavras não significam nada agora.

Não para mim, e certamente não para Marta.

— Ela era o mundo, e nós não fizemos nada para ajudá-la. Isso é o que acontece quando o mundo morre, entende? Não é o tipo de coisa que pode ser consertado.

 

2 comentários sobre “Corda Bamba, Café Coado

  1. ” Estou explodindo, e não me importo nem um pouco. Estou estilhaçando, e não estou prestando atenção onde meus cacos acertam. Ou em quem”. A M E I este trecho!

    Parabéns, querida!

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